Denny Aleff, homem trans que buscou tratamento pelo SUS em Sacramento

identidade de gênero

A vida de Denny Aleff (foto), 20 anos, nome social inclusive da carteirinha do SUS, foi sempre de muitas batalhas. Nascido em Araxá (MG), morou por 7 anos em Campinas (SP) e há 13 anos reside em Sacramento (MG).

O jovem D.C.P.F., iniciais do nome de registro de nascimento e do documento de identidade - que a seu pedido será preservado, nasceu no corpo de uma menina, mas desde a infância, se deparou com a dificuldade de adaptação ao corpo biológico de menina, levando a se tornar um dos primeiros casos de transgênero em Sacramento.

Hoje, com segurança, se define um homem trans. E é com essa maturidade, e principalmente com argumentos que explicam e confirmam que está realmente seguro para expor a situação, que a reportagem do TOPUAI procurada por ele, fez uma entrevista bastante esclarecedora sobre o assunto. Vale a pena conferir.

A DESCOBERTA

Para começar, questionamos como que ele começou a perceber que não se via como mulher e como foi esta aceitação na identidade masculina.

“Sempre tive esta percepção. Fui criado e imposto para conviver como menina. Usava roupas masculinas, mas a família sempre me tratava como menina, as vezes forçavam a usar vestidos, mas nunca gostei. Desde os 6 anos, eu já sabia que não era uma menina, não me dava muito bem com os meninos e nem meninas, mas as melhores brincadeiras eram com os meninos”, explica.

Nesta fase, a família tentou ser rígida e por isso Denny pouco brincava na sua infância. Ele conta que os avós foram mais severos e não deixavam ele sair; já a mãe, deixava ele brincar com qualquer tipo de brinquedo. E foi somente aos 16 anos que teve início um diálogo com a mãe sobre esta identidade de gênero.

O CONFLITO

Denny Aleff explica que percebeu na adolescência, o que de fato, já comprovava desde a infância: “minha atração por meninos nunca existiu. Sempre foi por meninas, mas mesmo assim, isso nunca justificou que eu seria uma pessoa lésbica”, comentou.

Outra questão. Segundo Denny, a maioria dos homens trans, sentem-se bem com a genitália que foi dada, mas para ele, isso ainda é um problema. “Não me sinto bem, minha desfloria é grande com o meu corpo, ela ataca meus sentimentos.

Foram momentos difíceis até chegar esta aceitação – principalmente da família e da sociedade. Por isso, depois de passar por anos em depressão, em 2017 aos 20 anos de idade, que ele decidiu procurar pelo tratamento.

“Pensava neste tratamento há muito tempo. O medo, os pensamentos, me desmotivavam muito, mas queria resolver de uma vez por todas. Corri atrás do que realmente queria. Em outubro, estava com dengue e fui ao médico. Aproveitei disso, e depois de passar por psicólogo, fui encaminhado a um médico endócrino. Vou começar a tomar hormônios em breve”, ressaltou.

O MOMENTO ATUAL

Mas como nada na vida é fácil, Denny Aleff tem sido protagonista de sua própria história. Perguntamos a ele, o que ele pensa para o atual momento, que é decisivo também para o futuro. “Penso no futuro, porque tudo já é complicado, como será para conseguir um trabalho, o fato de como será daqui para frente com este nome e penso também nas pessoas que passam pela mesma situação. Peço que todos não desistam”, desabafa.

Uma batalha judicial também está em seus planos. Ele pretende mudar o nome de registro, pois acredita que será um grande avanço para seus projetos, inclusive para sua entrada no mercado de trabalho, como já ressaltou. “Para conseguir este registro, farei todos procedimentos que tiver ao meu alcance, porque isso não fará feliz só a mim, mas as pessoas que convivem comigo. Quem me conhece de verdade, sabe que sou muito alto-astral, mas quando lembro que tenho muita coisa para passar, fico mal. Por isso, pretendo lutar muito para isso, sei que vai mudar minha vida por completo”, pontuou.

A VIDA SOCIAL

Por causa da depressão e por uns anos que a família também optou em tira-lo da escola, hoje ele está cursando o 2º colegial. Pretende em um futuro ingressar na carreira de Design Gráfico.

Denny namora uma menina e se enche de orgulho ao falar dela: “Namoro uma menina muito linda. Ela me apoia totalmente, de pé, cabeça e alma. Hoje mesmo ela foi ao hospital comigo, mesmo tendo que trabalhar. Ela é espetacular, não reclama de nada e quando estou com a cabeça avoada, ela coloca as coisas no devido lugar”, ressaltou.

Denny fez questão de frisar que sua namorada é uma pessoa hétero cis, ou seja, aquela q se identifica com o próprio sexo e curte gente do sexo oposto ao dela para se relacionar. “É preciso explicar, pois as pessoas não sabem definir gênero e sexualidade”, finaliza.

Médico apoia tratamento e comenta caso de Denny

O médico especialista em Medicina Preventiva e Social, da área da Saúde da Família, Cristiano Freitas Arantes, foi procurado recentemente pelo paciente em questão.

Com isso, nossa reportagem o procurou para comentar o tratamento. “É um caso relativamente novo para nós profissionais da saúde e ainda não é tão compreendido por muitos. É preciso adaptar a cultura enquanto envolve o sentimento humano não compreendido, como é o caso da sexualidade”, ressalta.

De acordo com o médico, o papel do profissional é fundamental, pois não devem tratar as pessoas trans como doentes, e sim saber lidar com seus sentimentos e conflitos, advindos da não compreensão por parte do próprio indivíduo e quase sempre da família e da sociedade. “Isto sim pode ser patológico e precisa de acompanhamento especializado, seja de um psicólogo, um endócrino, desde que atendam suas necessidades”, comentou.

Para o médico, casos como de pessoas com identidade de gênero semelhantes a este paciente, devem ser levados à sério, pois levam ao sofrimento com consequências mais profundas.

Diante de tudo, um conselho: busque o atendimento. Seja de um médico ou de um psicólogo.

* Redação/Daniel Afonso