Coluna MOTIVA AÇÃO - A Abelha Insensata

Coluna MOTIVA AÇÃO

                                                                                Por Gilvan Falcão


Às vezes, preciso trabalhar em um lugar silencioso e reservado, mas isso nem sempre é possível no escritório ou em meu estúdio em casa. Meu retiro preferido fica numa das torres do Templo de Salt Lake, bem longe do barulho e confusão das ruas da cidade. A sala é de difícil acesso e relativamente livre da intrusão de pessoas. Nesse local passei muitos momentos tranquilos e muitas horas ocupado com livros e caneta.

No entanto, nem sempre deixo de receber visitantes, especialmente no verão, pois quando as janelas ficam abertas, insetos voadores entram ocasionalmente no local. Essas criaturas que se autoconvidam a entrar na sala não são bem-vindas. Não raras vezes, larguei a caneta e, esquecendo-me do trabalho, parei para observar com interesse as atividades desses visitantes alados, convencido de que o tempo despendido não fora em vão, pois não é verdade que até uma borboleta, um besouro ou uma abelha podem dar lições a um aluno receptivo?

Certa vez, uma abelha selvagem das montanhas da redondeza voou para dentro da sala e, mais ou menos a cada intervalo de uma hora ou mais, ouvia-se o agradável zumbido de seu voo. A pequena criatura percebeu que era prisioneira, já que todos os esforços para encontrar a saída pela janela parcialmente aberta haviam falhado. Quando eu estava pronto para ir embora, abri mais a janela e tentei primeiro guiar, depois forçar a abelha a ganhar sua liberdade e segurança, sabendo que, se ela ficasse na sala morreria como outros insetos que caíram nessa armadilha e não sobreviveram à atmosfera seca do lugar. Quanto mais eu tentava forçá-la a sair, com mais determinação ela se opunha e resistia aos meus esforços. O zumbido suave de antes se transformou num barulho enraivecido, seu voo frenético passou a ser hostil e ameaçador.

Depois, num momento de distração minha, picou-me a mão — aquela que a teria conduzido à liberdade. Finalmente pousou num ornamento do teto, fora do meu alcance para ajudar ou prejudicar. A dor aguda da picada raivosa causou-me mais pena do que fúria. Eu sabia qual seria a inevitável penalidade para sua errônea oposição e rebeldia e tive que deixar a criatura entregue a seu destino. Três dias depois, voltei àquela sala e encontrei o corpo seco e sem vida da abelha sobre a mesa de escrever. Ela pagou com a vida pela sua teimosia.

Na visão tacanha da abelha e devido à sua má compreensão e egoísmo eu fui um adversário, um perseguidor persistente, um inimigo mortal obcecado por sua destruição, quando na verdade eu era um amigo, oferecendo-lhe um meio de resgatar a vida que ela colocara em perigo devido a seu próprio erro, tentando redimi-la da prisão da morte, mesmo diante de sua resistência, e restaurá-la para o ar da liberdade que reinava lá fora.

Será que somos tão mais sábios que a abelha? Há alguma analogia entre seu curso insensato e nossa vida?

Texto: Élder James E. Talmage